<%@LANGUAGE="JAVASCRIPT" CODEPAGE="1252"%> Perto do Coração Selvagem

Quarta-feira, Setembro 24, 2008


Último post

Não me perturbe com falsos pudores. Prefiro o galanteio barato que vem junto com o ar blasé de quem se habitua a um vício. Não me culpo mais pelas incertezas. Hoje acordei cedo e fiz um chá. Depois inventei um conto sem palavras, todo bordado na minha imaginação. Apaga o cigarro? Tô ficando chato com a maturidade. Confundo nomes, esqueço chaves. Me engano fácil com algumas delicadezas. Só algumas.

Essa noite sonhei que tudo estava diferente. Que a janela havia sido consertada, que as paredes do estúdio estavam pintadas de branco como num toque de mágica. Mas acordei com um frio de sete graus e a tampa da privada levantada. Você sabe me irritar. Assim como sabe fazer aquela omelete única com queijo barato derretido e um quê de cebolinha picada bem fininha.

Quero voltar a dormir a noite inteira, sem precisar dos comprimidos que me oprimem o corpo todo no dia seguinte. Queria esquecer que existe uma garrafa de gim atrás da estante, onde escondo tantos outros pequenos segredos: uma xícara antiga com a asa quebrada, nosso retrato rasgado num momento de fúria e até algumas lágrimas que saíam dos olhos direto para as páginas de certos livros.

Não quero mais lembrar de você. Não quero nunca mais saber de nós dois.

Coração na boca:

Segunda-feira, Setembro 22, 2008


O que eu preciso agora é voltar ao estado da paixão. É reinventar uma maneira de seguir em frente desafiado, sem temor, apenas com a vontade de chegar ao outro lado. Tenho necessidade de tirar os pés do chão vez em quando. Olhar de frente para o que não conheço e cumprimentar – muito prazer!

Mas esqueço dos tropeços da Alice e saio correndo a cada passo largo do coelho. Noites de beijos, de sombras, de bilhetes amassados com nomes e telefones de quem sequer lembro a expressão dos olhos. Eu até quero a vertigem. Mas ainda sonho com uma vida mais calma, sem tantas máscaras diárias e sofrimentos desnecessários. Não suporto mais acordar com raiva de mim.

Hoje resolvi lavar roupa. Toda a roupa suja que havia acumulado nos últimos dias. Moro num quarto tão pequeno que ele parece desarrumado o tempo todo. Já não gosto mais de ficar esperando o próximo trem. Preciso voltar a ter foco. A acreditar em mim, sem necessariamente ancorar meus navios em portos alheios.

Estou farto das muitas palavras e da pouca ação!

Coração na boca:

Sexta-feira, Setembro 19, 2008




Pressentimento

(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade...

P.S.: às vezes precisamos ouvir certas canções. Nesse caso específico, retomá-las. "Você não é um rio cheio que eu não possa atravessar!"

Coração na boca:

Quarta-feira, Agosto 20, 2008



*M.Mirzaei

Juro: minha solidão é "conseqüência inevitável de você"!!!

Coração na boca:

Quinta-feira, Agosto 14, 2008



*Sarah Illenberger

Para um coração que ficou frio: cuidados. Isso mesmo, carinhos quentes, chá de camomila. O desvelo de uma manta (cobrindo mãos e braços nevados), a intenção do bem guiando o olhar. A lenha crepitando na cabeça, trazendo os cheiros fortes de uma história que acabou: lavanda, angélica, gerânio. E assim vou vivendo, entre belezas reveladas pelas páginas de tantos livros, imagens de tantos filmes. Sons inusitados que sugerem outros temas nas músicas que fazem viajar, aqui mesmo, sentado na poltrona verde de tantos carinhos.

E a velha colcha de retalhos, precisa em seus caminhos, é a prova viva de que o amor não acabou em mim.

Coração na boca:

Terça-feira, Agosto 12, 2008


E hoje eu acordei enfrentativo e lúcido como há muito não se via (medo!). Sabe quando a brisa da madrugada sopra coisas interessantes durante o sono? Releio as cartas do Caio F. e me assombro com algumas constatações. Será que maturidade é isso? Perceber a cada dia, mais e mais, nossa fragilidade diante do mundo? Mas como disse: lúcido. Sem aquelas alegorias que vez-em-quando povoam minha cabeça e fazem nublar meus pensamentos e minhas vontades. Manhã com café na Livraria Cultura e sorriso nos lábios atravessando a Paulista. E tenho dito!

Coração na boca:

Quarta-feira, Agosto 06, 2008


Ontem foi o último dia no trabalho. Hoje passei o dia na rua procurando apartamento. Entre um e outro, a necessidade de olhar para o lado e perceber que ainda te enxergo. Acho que isso só acontece comigo. Eu não consigo me livrar do passado. Pelo menos, não de certas memórias. Ao entrar em cada novo apartamento penso no que você diria, com seus óculos na ponta do nariz, sua cara séria e ao mesmo tempo doce. Pensaria no tamanho da cozinha? Toparia mudar a cor das paredes da sala? E a estante, onde ficaria? Mas faço isso sozinho. Penso por mim e pelo par futuro. Imagino a primeira pegada na areia de uma praia mais sincera.

Não quero adeus. Não quero mais nada que não seja de verdade.

Coração na boca:

Quarta-feira, Julho 23, 2008


"Partir, andar... eis que chega..."

E tudo que eu queria era a tal pausa de mil compassos, da qual falou Mestre Paulinho da Viola. E tive. Mais de um mês longe do blog, me fez pensar nos motivos que me levam a escrever aqui desde 2002. É que vez-em-quando a palavra escrita tem essa capacidade de revelar pra nós mesmos o que acontece no entorno. Explico: o mundo gira tão depressa com o seu “grande poder” que perdemos um pouco a capacidade de reflexão. Tudo (o olhar, o ouvir, o sentir) se contamina com a urgência do tempo, que não mais permite o fôlego pós-mergulho.

Em duas semanas deixo meu atual emprego. Recomeço. E como eu gosto disso, dessa possibilidade de alterar as coisas do lugar de sempre, mudar o trajeto, a rotina, os horários. Nesse último mês, aproveitei ao máximo cada momento. Fui a Paraty participar da Flip e a Campinas, durante a SBPC. Nenhum novo amor, nenhuma grande revelação. Alguns filmes e livros, muitas músicas. Boas gargalhadas, pouco choro. Sem grandes farras ou fugas, ficou a vontade de tomar suco de fruta na beira do mar, a poucos metros da casa de minha mãe. E é minha promessa pra agosto: sol, sal, mar...

Coração na boca:

Quarta-feira, Junho 18, 2008




"... que a brisa do Brasil beija e balança ..."

Coração na boca:

Segunda-feira, Junho 09, 2008


Sonhos de Margarina

Eu já tive. Já me vi com uma bela família, em torno da mesa de café da manhã, tal qual mostra o comercial. Mas na vida real os sorrisos harmônicos não são eternos. Aprendi então a comemorar os instantes felizes. Aqueles salvadores, cuja natureza efêmera não permite grandes vôos, muito embora nos deixem quase sempre no céu.

Devo estar pensando nisso, nos tais sonhos, pela chegada do Dia dos Namorados... ok, eu sei: tudo criação do comércio, efeito do marketing, coisa de capitalista. Certo, certo. Mas tenho alma romântica, gente... como explicar pra mim que vou passar mais um 12 de junho sozinho?

Eu que adoro os jantares a dois, luz de velas e clima de cumplicidade no ar. A roupa de cama limpa e cheirosa, a música de fundo, a promessa de entendimento e de entrega generosa, silenciosa, quase devotada. E daí volto aos sonhos de margarina, ao labrador que ainda não tenho, aos passeios nos finais de semana (existe coisa melhor que ir à livraria acompanhado? Ao cinema?), a uma vida que por mais idealizada que seja pode sim, ser minha... por que não?

Coração na boca:

Terça-feira, Maio 27, 2008


Fazendo as pazes com a (minha) realidade

Não lembro mais o dia da semana. Lembro ter sentido uma dor enorme. Mas não era no peito. Era uma dor difusa, que nascia na ponta dos dedos e se espalhava pelos braços e pernas até atingir em cheio minha cabeça. Tentei usar a cabeça, ser racional. Tudo que consegui foi desligar o computador e pedir ao chefe de redação para ir embora. Queria sair dali o quanto antes. Queria chorar na rua, enquanto não chegava em casa.

Lembro que fui a pé, entre a Rui Barbosa, no Bexiga, e a Haddock Lobo, nos Jardins, onde eu morava. Um ou outro passante observava minhas lágrimas caindo e meu rosto muito vermelho. Não lembro mais do ano. Mas lembro que era dezembro. E em dezembro as dores são mais sentidas. Cheguei em casa e tudo que fiz foi tirar a roupa e cair na banheira morna, quase quente. A mesma banheira de antes da perdição.


Pausa. Respiro.

Quase metade de 2008. Resolvo que vou de novo dar um rumo aos meus dias. Chega de descompromisso, de farras homéricas, de infelicidade no trabalho. Chega de saudade. Tenho poucos meses para deixar tudo em ordem: do saldo no banco ao coração rasgado. Passando pelo novo ap que ainda não encontrei, pela intolerância aos meus chefes imediatos, pelas frases mal-costuradas dos últimos tempos.

Estou ciente de que não sou uma pessoa infeliz. E contente em ter o que tenho diante de um mundo cada vez mais desbotado. Mistério, como diz o Gil, sempre há de pintar por aí... mas quero a sorte de dias mais tranqüilos e menos embaraços na hora de bater de frente com uma promessa concreta de felicidade. Não sou velho. Não sou jovem. Tenho o melhor dos dois mundos (como disse a alguns poucos que me são caros).

Não vou sujar minha barra tentando limpar a sujeira dos outros. Tenho uma lista enorme de motivos pra ser feliz. Vou aproveitar minha energia para partilhar mais, para escrever e-mails a amigos queridos, para conversar horas com minha mãe ao telefone, para voltar a cozinhar e morrer de prazer com isso. Para escrever, ler, ouvir, ver e sentir como sempre fiz: acreditando tanto na fantasia que ela acaba se transformando em realidade.

Coração na boca:

Terça-feira, Maio 20, 2008


“Quando tudo entre nós terminou”

Reli hoje essa frase. Mais de uma vez. Era assim que começava seu último e-mail, perdido numa gaveta de guardados.

Quando tudo entre nós terminou eu achei que seria mais fácil. Voltar a sorrir sem medo de contrariar sua melancolia. Voltar a praticar certa leveza que nosso relacionamento havia roubado de mim em troca de tantos momentos ternos, mas tensos em certa medida.

Quando tudo entre nós terminou, tive medo de amar de novo, por medo de sofrer. Foi aí que vi o quanto de insegurança rondava meu coração, quando perambulava entre duas cidades, duas vidas, destinos tão pouco amparados.

Desde então vivo fugindo das declarações fofas de amor-eterno e das afinidades eletivas. Passei a dar preferência aos prazeres fugazes, ao riso farto provocado pelo vinho (e recentemente pelo gim com gelo). Mesmo sem lembrar direito do rosto que me beijou na noite anterior. É que me sinto protegido, sabe?

Sinto que não vou precisar chorar ao ler ou ouvir: “- quando tudo entre nós terminou”. Pra você deve ter sido bem mais fácil (embora sempre vá defender o contrário). Você sempre gostou das letras de samba com drama escorrendo das veias.

Eu continuo sendo assombrado pelos fantasmas de nós dois. Como diria Caetano, multiplicando os pés por muitos, mil... sambando como no retrato, que a luz de uma história incompleta imprimiu em nós.

Coração na boca:

Quarta-feira, Abril 30, 2008


Costumo ser indulgente com certos sentimentos. E intolerante em relação a outros. Hoje acordei com vontade de tomar chá, metido num roupão de flanela, com meu sapatinho-de-frio (feito pra usar em casa). Mas não pude. Fiquei com raiva de ter que sair na rua, onde o frio de 15 graus desafiava meu humor e minha capacidade de ser generoso e bom às 8h da manhã.

...

Acabei de ler um livro que mistura discursos de Octávio Paz e Hannah Arendt. Gostei. Me fez pensar em temas menos mundanos (como a minha dor-de-cotovelo) e mais construtivos. Mesma sensação que senti ao ler a bela entrevista de Edgar Morin publicada na Folha de São Paulo, na última segunda-feira.

...

Coisas assim (e mais os dois CDs que baixei do Wilco e Billy Bragg cantando músicas com letras de Woody Guthrie) me fazem voltar a ter fé na vida. Guardo as mágoas numa caixinha e esqueço no fundo do armário. Junto com alguns sonhos que se perderam no caminho.

Coração na boca:

Terça-feira, Abril 29, 2008




Como apagar alguém da memória? Como esquecer cenas inteiras de intimidade, de leveza e também de desencanto? Minhas mãos tremem desde ontem. Voltei a ter aquela respiração meio-ofegante e não me alimento desde que... será que vou adoecer de novo? Será que é assim, vai ser sempre assim?

Na mesma cidade. No mesmo bairro. No mesmo espaço. Com a distância calculada de algumas horas. O tempo. Será que só o tempo vai me curar de você de uma vez por todas? Porque simplesmente não te esqueço como você me esqueceu, mesmo sem dizer adeus?

O chão se abre e se fecha cada vez que penso em continuidade. Nunca fui bom com os finais. Lembra? Pra mim eles são sempre desiguais. E agora fico à mercê do tempo. Logo do tempo. E da misericórdia dos dias melhores que ainda virão.

Coração na boca:

Quinta-feira, Abril 24, 2008


Impossível ouvir uma música do passado e não lembrar de paisagens e pessoas que ficaram coladas na memória. Hoje não li no ônibus. Resolvi mergulhar na melodia sofrida do Elliott Smith. Mas não é desse bardo encantadoramente triste que eu queria falar. É de uma das músicas do disco A Beira e o Mar, da Bethânia, lançado em 1984. Falo disco porque a primeira versão que tive da obra foi um LP.

A música?

Chama: Pra Eu Parar de Me Doer, do Milton e do Fernando Brant. Como boa parte do repertório, veio de um show antológico da Bethânia chamado A Hora da Estrela, roteirizado e dirigido pelo Naum Alves de Souza. É impossível não enxergar Macabéa e Clarice ao ler a letra e ouvir a sentida melodia. Isso me lembra que eu conheci livro e canção sem saber da ligação entre ambos, tudo no mesmo ano, não é louco?

Ouvi de novo a música ontem, ao baixar o álbum pro iPod. Fiquei imaginando em como o mundo dá voltas e acaba por não sair do lugar. Em como sou o mesmo garoto perdido daquele outro tempo, entre serras e noites de lua cheia. Sonhando em acordar uma madrugada e, pulando a janela do quarto, dar de cara com um mundo diferente. Inventado, imaginado.

Mas aprendi que a única forma de criar um mundo novo é dar tempo ao tempo.

Pra Eu Parar de Me Doer
(Milton Nascimento-Fernando Brant)

Mais que a dor do amor
Viver a dor, me doeu
Eu quero mesmo é ser feliz
Amar, amor

Quem não semear,
Não vai colher
Ai, de quem é um
E nunca será dois
Por não saber...

Quem irá me valer?
São pessoas, é a caminhada
Quem irá me valer?
São meus sonhos no pó da estrada
Quem irá me valer?
É o sorriso que guardo comigo
Quem irá me valer?
É o segredo de fazer amigos...

Coração na boca:

Quarta-feira, Abril 23, 2008


My Blueberry Nights

Não desfez as malas, nem arrumou a cama como sempre fazia. O cheiro ainda estava forte no quartinho apertado. Quando, finalmente, encontraria um teto seu? Quando teria um amor que durasse mais que algumas horas? Entrou no box com raiva, olhando as marcas pelo corpo. Teve ódio da amnésia alcoólica. Queria lembrar o rosto. Queria tirar o gosto da boca. Um gesto... tantos comentários maldosos. A memória do beijo se perdeu em meio ao caos que tomou conta do lado de dentro.

Na primeira manhã em que se viu sozinho, decidiu que já não queria a companhia de quase ninguém.


Coração na boca:

Quinta-feira, Abril 17, 2008


Dor elegante

Queria ter sido com você o que não fui com mais ninguém. Mas não deu. Talvez nosso encontro deva ser assim, na exata medida do descompromisso. É que você não é a pessoa mais delicada do mundo, embora pareça. Sua secura muitas vezes me deixa fora do eixo. É quando fico me perguntando o que ainda nos une. Mas aí vem o jantar preparado a quatro mãos, o pedido pra ficar mais "cinco minutos" na cama... abraçados, corações aos saltos, antes de levantar pra encarar o dia e o mundo de verdade fora do quartinho. Aí percebo que nossa relação é maior que os clichês. E como você diz, quando ficamos juntos é em nome da liberdade, não da obrigação.

Coração na boca:

Terça-feira, Abril 08, 2008


Numa manhã cinza de abril...

Acordo cedo. Banho longo. Saio sem café. Ônibus. Trilha de Once no iPod. Primeiro ponto, segundo... - oi, lembra de mim?

Pois é, amigos queridos, o que era pra ser mais um trajeto de bocejos sonolentos e música melancólica, virou um reencontro inusitado, com direito a troca de olhares, palavras doces e um indisfarçável desejo de repetir o beijo na boca... ali mesmo, em pleno Butantã-USP (a linha mais cool de São Paulo) quase lotado.

Vocês acreditam em destino, o lugar-comum-razão-de-ser das comédias românticas? Eu já não tenho tanta certeza. Juro que esse encontro ao acaso me deixou com uma sensação estranha de que o Gil é que está certo quando canta: -mistério sempre há de pintar por aí...

P.S.: há quem diga que, com o outono, eu me torno previsível e excessivamente romântico, mas vai dizer que um fato assim não é inspirador?

Coração na boca:

Quarta-feira, Março 26, 2008




É assim: dois personagens sem nome são unidos ao acaso pela música e pela solidão. Estamos em Dublin. Faz frio. Ele vem de uma desilusão amorosa, ela de um casamento infeliz. Ambos fazem parte de uma Europa que não estamos habituados a ver nos filmes comerciais ou cartões postais. A história dos dois teria tudo pra ser de amor. E é. Mas não o amor esperado. Talvez o olhar perdido da personagem, captado no final pela câmera, seja indicial desse fragmento de discurso amoroso que, de tão único, nos deixa irremediavelmente tocados.

*O filme em questão chama-se ONCE, uma fita "independente" da Irlanda que ganhou o oscar de melhor canção esse ano. As canções, inclusive, dispensam comentários. Baixem já, eu garanto!

P.S.: queridos amigos que por aqui passam vez-em-quando, vocês já tiveram encontros assim? Já se apaixonaram por alguém que sequer tocou? Já perguntou como se diz: -eu te amo- em tcheco? Já recebeu como possível resposta um -eu te amo também- mesmo não entendendo o que isso significa? Pois bem, eu já. Me vi dedicado por inteiro a um amor assim, cheio de cuidados. Mas nem por isso concretizado. Tristes os que não têm histórias para lembrar, dos que não têm um passado. Viver um amor (e até suas possíveis cicatrizes) acaba por dar mais sentido a todo esse mistério. Mesmo entre os que não costumam ser fiéis aos acontecimentos biográficos.

Coração na boca:

Sábado, Março 22, 2008


Mudança dos Ventos

O que dizer agora? Você vem, pinta e borda comigo, me revista, me excita... o seu cheiro impregnou meus lençóis, isso sim. E é assim, Takai cantando Nara, eu sonhando com outros tempos. Vai... do jeito que imagino, me tira essa vergonha, me mostre, me exponha. Me tira uns 20 anos? Nossos abraços. Talvez seja apenas isso. A memória do beijo. O aconchego de há pouco. Queria parar o mundo. E trazer você de volta... trazer você pra perto. Deixa eu causar inveja? Deixa eu causar remorsos? Nos seus, nos meus, nos nossos...

Coração na boca:

Quarta-feira, Março 19, 2008


Julie Delpy tem a minha idade. E as coincidências entre nós dois param por aí. Mas ontem, como diretora e atriz (do belo Dois Dias em Paris), ela deu o recado que eu queria nos minutos finais do seu filme. Em off, resumia a discussão que estava tendo com seu companheiro (o ótimo Adam Goldberg). Entre muitas frases simples, mas precisas, ela dispara:

- "Sempre me surpreendo como duas pessoas passam,
de uma hora para outra, do amor incondicional pro vazio absoluto".


Não namoro oficialmente desde meados de 2005 (e foi por período curtíssimo, apesar de intenso). Antes disso, tive uma história que mesclou clichês-românticos, momentos de rara poesia e certa dor (quase escrevi a palavra mágoa, ato-falho).

Desde então vivo histórias mais ou menos fugazes. Pessoas que passaram a ser importantes (outras nem tanto), corpos quase-anônimos, beijos roubados, rubor de faces nas estações de metrô... no meio de tudo isso, há dois anos, pintou uma "relação aberta" (na medida do impossível), com alguém que conheço desde 1998 (putz, dez anos).

Tudo isso nem chega perto de resumir minha confusa-vida-sentimental. Tenho arroubos de saudade, misturo cenas e personagens, sou puro simulacro. E ainda tem a vida real: prática, cotidiana, que exige lucidez, serenidade, MATURIDADE.

E assim caminha nossa frágil humanidade. Sim, por que a vida nada mais é que essa sucessão de perguntas sem resposta, de emoções desencontradas, de momentos felizes e outros nem tanto. Tudo com seu devido princípio e fim. E como eu sempre digo: os finais são sempre desiguais.

Coração na boca:

Segunda-feira, Março 17, 2008


O sol cedeu lugar à chuva. Tudo cinza e frio. Mas isso bem que me agrada. Depois de uma viagem rápida a Rio Preto (sim, de avião, para desespero pessoal), estou de volta à rotina. Um fim de semana fora de Sampa nos faz perceber outros tons no céu. Isso é bom.

...

Fico me perguntando agora o que quero, de fato, da vida? Estabilidade? Fortes emoções? Respostas francas? Evasivas? Sei que sou sim, cheio de subterfúgios... mas uma hora cansa. Não seria mais fácil definir papéis? Cumprir certo roteiro? Pensar num final feliz?

...

Você diz que sou romântico. Eu me acho cada vez mais dissimulado em matéria de amor!

Coração na boca:

Segunda-feira, Março 10, 2008


Fazer filme, fazer cena. Te ligo de madrugada, desligo, volto a ligar.

Corta.

Março chegou ensolarado e eu só penso em contar tatuagens. Na altura das costas umedeço os lábios e beijo meu desejo, geografia íntima descrita pelo toque dos dedos.

Um, dois, três passos. Limites de um continente inteiro refletem na retina. Tuas pernas, teus braços coloridos com simbólicas aquarelas.

E tudo que eu quero agora é ar refrigerado e trem bala sobre as avenidas lotadas de carros e gente.

Tirando a roupa, lentamente, abrimos a janela pro mundo, pra rua, pros outros.

De que forma nos aproximamos mais e mais dos começos?


Digressão.


Podia ser outro, o corpo. Mas era o teu.

Solidão por falta de cuidado.

Nem sente culpa por nos fazer infelizes assim.

Coração na boca:

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008




Se Annie Hall e Alvy Singer existissem na vida real seriam os meus melhores amigos (rsrsrs). Exagero à parte, devo confessar que essa comédia romântica (sim, é desse jeito que classifico esse, que é um dos filmes da minha vida, até porque ADORO comédias românticas e não me importo nem um pouco pra quem torce o nariz pro gênero) passou a fazer parte de mim, desde os anos 80, quando assisti pela primeira vez.

Desde então, Diane Keaton virou minha musa de qualquer estação e, sempre que posso, revejo entre risos e lágrimas esse clássico de Nova York, com seu cinza e seu charme, seu jazz e sua bossa tão característicos. Foi o que aconteceu ontem, domingo chuvoso em Sampa. Zapeava a TV em busca de um sopro de vida e eis que surgem Annie e Alvy prontos a me resgatar do limbo.

Não sei dizer exatamente o que tanto me encanta nesse filme. Acho, por exemplo, Manhattan, do mesmo diretor, estupendo. Mas nada se compara à graça indiscreta de Annie. Suas trapalhadas e suas tentativas de felicidade em meio à neurose contemporânea. Minha identificação com ela é tamanha, que chego a temer por meus relacionamentos (rsrsrs). Afinal, o que está ruim sempre pode ficar pior, não é mesmo?

O que mais me delicia em Annie Hall, no entanto, é a sua atualidade. Tudo que o casal de protagonistas aborda durante o filme é tão presente em nossas vidas, como há 30 anos. Vejo o filme e reconheço nele todas as minhas paranóias, a eterna desconfiança em relação ao afeto do outro, a pouca credibilidade em si mesmo diante de situação banais, corriqueiras. Por tudo isso, sempre vou amar assistir de novo e sempre as agruras de Annie e Alvy, encontrando ali a humanidade necessária para continuar acreditando sempre, mesmo desconfiando tanto.

Coração na boca:

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008




“Qual é mesmo a palavra secreta?”

Clarice escrevia para entender. Ela precisava se expressar através das palavras para não enlouquecer de vez.

Descobri que às vezes é preciso dizer adeus para finalizar uma história (de amor?). Digo isso porque me ressinto até hoje com uma não-despedida.

Era tarde, era abril, chovia? Já não sei. A memória me trai o tempo todo. São Paulo é cinza quase o ano inteiro, portanto, vamos esquecer o calendário.

De uma lembrança ancestral, porém, nunca me livrei: o medo do escuro. Por isso penso que chorei o suficiente na infância, antes do sono, no escuro do quarto.

Nessas horas qualquer alegria ficava triste. Ainda sinto isso. Quando algo como a felicidade me ronda e eu não consigo alcançar. Desejos apressados (quase raros).

(...)

Não devemos dar margem aos devaneios. É que ando solto e frágil feito papel em ventania. Não tenho porto, parada, não tenho ânimo.

Estou quase um verso soprado.

Já não imagino "dois" como antes. Desde aquele abril, agosto ou será que foi um dezembro? Sem paciência para escrever, desencano das possibilidades de entendimento.

Prefiro concentrar minhas forças na perdição, transformando em parceiro o velho medo do escuro, renovando por dentro os votos de que não preciso mais de nós.

Nem do adeus para chegar ao fim da história.

P.S.: a imagem de Clarice escrevendo me deixou mudo (numa felicidade clandestina).

Coração na boca:

Terça-feira, Janeiro 29, 2008


Clarice, my dear

Caio Fernando Abreu dizia que tinha vocação para magoar os outros e a si mesmo. Comigo invariavelmente acontece a mesma coisa. Chove a cântaros na cidade de São Paulo. O trabalho continua monótono e eu louco por outra vida. Mas é sempre assim. Deve ser signo, sina. Sagitariano parece nunca estar satisfeito com nada. Você sabe disso, já que nasceu no mesmo dia que eu.

Tenho tentado reclamar menos. Já não me lamento como antes. Mas querer dias diferentes e um cotidiano menos maçante é o mínimo que posso pedir. Mas a quem? Aos céus? Ontem retomei a releitura de “A Invenção de Morel”. Amo esse livro. É de uma angústia criativa que nos impele a sair do canto, largar a inércia e tentar mais. Nem que seja alimentando o plano imaginário (coisa que faço tão bem).

Ousadia. Foi isso que pensei no dia que decidi largar tudo e vir morar nessa cidade. Era 1990. Desde então fiz tanta coisa. E isso ninguém me tira. Ter um passado, contar a própria história, tocar nos fatos através de fotografias, cartas, bilhetes, pequenos fragmentos que enchem agendas, caixas, páginas marcadas de livros. E música. Não existe nada que evoque mais a memória afetiva que os fundos musicais que formam a trilha sonora da nossa vida.

Vou me embrulhar ao chegar em casa nesse dia de chuva e certo frio. Fazer cabaninha com o edredom e ouvir músicas antigas. Sozinho, mas, dentro do possível, feliz.

Coração na boca:

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008


Caríssima,

como te disse uma vez, vivo de presságios. As primeiras semanas de 2008 têm sido corridas, com muita coisa acontecendo. Mas ainda teimo em arranjar tempo de olhar pro céu. E o céu acaba nos contando tantas coisas. Hoje mesmo saí antes das sete da manhã de casa. Céu cinza, nuvens descuidadas.

Em dias assim vêm à cabeça pensamentos esquecidos. Vontade de retomar planos, juntar palavras de dentro e de fora, buscar simplicidade. Não temer as frases feitas nem os sentimentos desencontrados.

Já se permitiu desejos assim, Clarice? De voltar no tempo e aproveitar dele só as coisas boas? De adiantar o tempo e viver nele tudo que for realmente significativo? Olhar para o presente e lembrar de agradecer tudo: plenitude, serenidade, harmonia.

Ando assim. Como esses trovões e relâmpagos do meio da tarde. Tentando lembrar a última vez que me senti realmente amado, desejado, querido. Tentando colar todos os fragmentos e reunir minha história num único enredo: feliz, raro, meu de fato.

Coração na boca:

Sábado, Janeiro 05, 2008


Oi Clarice,

há tempos não te escrevo. Pelo menos assim, desse modo despudorado e íntimo. São reflexos dos primeiros dias de 2008, calmos, sem grandes alardes. Alguns rompimentos de contratos, assinatura de outros. Voltei a morar num antigo apartamento de enormes janelas, de onde posso ver o céu entrecortado por outros prédios maiores e menores e isso, de algum modo, me lembra você e suas paisagens.

Ando amplo, sem vontade de grandes lamentações ou autopiedade. O meu tempo é hoje, embora continue com a mania de olhar através de frestas. Nesse outro tempo, revejo de soslaio antigos sorrisos e me alegro com belezas que um dia visitaram meu quarto, minha cama, minha vida.

Mas tudo isso também faz parte. Não é assim que acabamos por guardar as memórias mais significativas? Não é por isso que fazemos compotas de frutas raras, que ficam escassas em determinadas estações?

P.S.: terminei um livro leve e sem afetações, baseado num blog. Conversando com D., meu novo e querido flatmate, sobre as histórias de Julie Powell despertei para algo que nunca havia pensado. Lembrei que mantenho o Perto do Coração Selvagem há mais de cinco anos. Por aqui já passaram muitos leitores. Alguns viraram amigos, outros desapareceram sem que eu jamais os tivesse visto, conhecido. Outros tantos continuam surgindo. Alguns deixam rastros, outros apenas participam calados dessa minha aventura diária. Mas quem de fato está do outro lado da tela? Quem são meus duplos nesse espelho?

Coração na boca:

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007


Quando tudo faz lembrar. Quando tudo faz ficar. Aí vem a sensação de que os caminhos não se cruzam ou entrecruzam por acaso. Te disse que a fantasia entre nós se rompeu. Outras fantasias entre nós se farão. E é disso que é feita a vida. De eternos retornos.

Último dia de 2007, um ano de muitas dores e alguns amores. O que fica é a vontade de amanhecer junto com o sol de manhã. Renascer com um desejo novo e nenhum peso no peito. Estou em São José do Rio Preto, noroeste do Estado de São Paulo. Reconheço a casa, o banheiro, o cheiro, a comida japonesa feita por sua mãe e agradeço a enorme paciência comigo.

Juntos há dez anos, mas sempre tão separados. Dessa vez estamos acertando a mão na tal abertura de sentimentos pro mundo, pra vida. Não, não, nossa história não terminou (seja ao som do piano ou do violão). Ela se refaz, como cada ano, um após o outro.

Como 2007 acaba para dar lugar a 2008, um ano cabalístico para mim. O ano dos 40, o ano dos 10. Um ano que promete ser de recomeços, amores lançados (de outras bases) para espaços siderais. Adoro a idéia de saturno ter anéis, de termos iniciado a vida no fundo dos oceanos. Adoro acordar de noite com medo e sentir que você está ao lado. No escuro e vendo.

Não sei, amigos queridos, o que nos espera dobrando a esquina do tempo. Espero que seja mais aceitação, mais paz por dentro, mais amor para os olhos, corpo e alma. Não quero hoje fazer balanços ou planos. Quero continuar tentando. Quero não ter medo de gritar quando sentir vontade, de beijar quando tiver desejo, de desistir quando tudo mais já não valer a pena. Como diz a musa desse blog, desistir é também uma forma de começar tudo de novo.

Que venha 2008... vou deixar a porta aberta!

Coração na boca:

Terça-feira, Dezembro 18, 2007


Acabou Chorare

Quando você me deixou e disse pra eu ser feliz, quase acreditei que seria. Desde então presumo que você fala pra todo mundo que me conhece. Que sabe de cor todas as minhas dobras, esquinas, meu subtexto, centro e periferia. Mas não se engane, baby.

Nos conhecemos desde quando? Desde sempre? Desde o começo? Parece que sim. Sempre que abro uma velha caixa esquecida de fotografias, estamos ali, colados, flagrados em harmonia, loucos para que a vida não separe, para que o gosto nunca mude ou a vontade de um pelo outro sempre prevaleça.

Só que a vida veio e levou quase tudo que havia entre nós. A confiança mútua, o respeito pelas lágrimas secretas vertidas na solidão dos travesseiros ou até a risada escandalosa no meio do mundo, que muito incomodava, depois das tantas cervejas.

Reforço que o rompimento não foi seco, rápido e indolor. Começou lá, bem no tempo em que a gente ainda acreditava num "pra sempre". Mas tudo acaba, como já disseram. A alegria, a tristeza, a saudade, os desejos.

Tudo isso vai embora. Assim como você fez quando nos deixou para trás em busca de outros sentidos. Tem dias em que até eu sinto. Mas é pra dentro, embotado, como se fizesse um bordado invisível aos olhos alheios.

Hoje você escreveu apenas uma linha. Lá no distante. Lá no exílio. E lembrou apenas de maldizer nossos dias. Sua generosidade se foi, como folha morta na ventania. Esqueceu de nós pacificados, plenos, abertos diante daquele mar imenso de possibilidades.

Não voltarei a ler a tal única frase. Palavra corta feito navalha. A sua tirou sangue, estancou meu riso que ficou suspenso, assombrado nos lábios. O pouco que havia talvez agora já não diga mais nada.

Coração na boca:

 

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